Especial Wine Future Rioja 2009 - parte II
A tecnologia e os críticos
Por Júlio Cesar Kunz - consultor
Foto: Conrado Herrero / Divulgação
Gary Vainerchuk.
Gary Vainerchuk.

Uma mesa redonda do Wine Future foi dedicada à discussão sobre o papel da mídia, dos críticos do mundo do vinho e da internet na comunicação e a influência da tecnologia e das mudanças cada vez mais rápidas na forma que as pessoas têm de se comunicarem. As duas últimas décadas foram fortemente marcadas pela influência de críticos, que começaram a despontar no cenário mundial nos anos 1980, por se colocaram mais próximos dos consumidores com uma linguagem menos técnica. Figuras como Robert Parker e Jancis Robinson exerceram, e ainda exercem, grande interferência nos principais mercados de vinhos, sendo que a procura e o preço dos vinhos dependem muito de suas avaliações. Por insegurança de alguns consumidores diante da categoria vinhos, o poder de tais críticos foi levado ao extremo de haver vinhos elaborados para ter boas pontuações junto a eles, conduzindo os vinhos pelo caminho da homogeneização.


Mas, com o avanço nas tecnologias de comunicação isso pode mudar. Diz a jornalista inglesa Jancis Robinson: “A era dos gurus do vinho terminou. Precisamos aprender a ser algo mais do que apenas escritores. Precisamos gravar vídeos, tirar fotos, criar opiniões e usar novas redes”. É preciso valorizar a opinião dos leitores e consumidores, pois “eles são os críticos de hoje”. O crítico espanhol José Peñín lamenta “a perda da cultura do colunista de vinhos”. Segundo ele, “ao invés do conhecimento profundo, procura-se apenas um número”. Talvez essa opinião caracterize o efeito Parker sobre o mundo do vinho.
Já Gary Vainerchuk, possivelmente um dos mais jovens palestrantes no palco, e com certeza o mais irreverente, é a personificação de uma grande mudança de paradigmas no que diz respeito à comunicação do vinho. Segundo o americano, de origem bielorrussa, “o mundo está mudando muito rapidamente e o que ninguém podia imaginar é que a tecnologia do telefone celular ou das redes sociais, como Facebook e Twitter, seria a nossa base de crescimento. Eu posso falar agora e ser gravado e assistido por milhões de pessoas ao mesmo tempo, e o mesmo se eu bebo vinho. Essa é a contribuição chave das tecnologias atuais”. Para Gary, a consequência direta disso se traduz em uma frase: “O futuro da mídia é democracia”, pois qualquer um, desde o produtor até o consumidor final, pode escrever sobre vinho. E é nesse ponto que surge uma grande oportunidade para o desenvolvimento do setor.


Questão de confiança
A maioria dos consumidores (90%, segundo pesquisa realizada com mais de 25 mil consumidores em 50 países) confia nas opiniões de outros consumidores. A credibilidade da mídia especializada (revistas, TV) cai bastante e, quando se trata de anúncios comerciais, a confiança chega a níveis baixíssimos (16%, nos EUA). Isso significa que num ambiente onde as informações estão concentradas, a crítica especializada tem uma grande influência sobre as decisões de compra dos consumidores finais, mas as tecnologias mais recentes de comunicação permitem que os consumidores estejam em contato uns com os outros, reduzindo o peso da crítica.


A internet põe todos nos mesmo nível e há cada vez menos necessidade de intermediários para que as vinícolas conversem com os seus consumidores a um custo muito baixo. É a chance de cada um poder contar sua própria história e não deixar que outro o faça no seu lugar. E a fórmula para aproveitar essa oportunidade é, nas palavras de Gary, dizer: “Sou apaixonado e me preocupo”. Ou seja, o produtor tem de ser apaixonado pelo seu negócio, pela sua vinícola, pelos seus vinhedos e pelo seu vinho devendo comunicar isso de maneira adequada, preocupando-se com os seus clientes. De acordo com Juan Such, a forma de comunicação tem de ser mais pessoal do que corporativa para que tenha mais credibilidade junto aos consumidores.


Ryon Opuz, fundador do site catavino.com, diz que a internet pode ajudar a colocar o vinho na vida do consumidor, ao invés de fazer do mundo do vinho algo distante do seu dia a dia. E contra os críticos tradicionais, Gary disparou: “A nata fica naturalmente por cima”.


Um papo com Steven Spurrier


Steven Spurrier, crítico de vinhos britânico, atualmente é consultor editor da revista Decanter, uma das mais importantes publicações críticas sobre vinhos do mundo e dirige o curso de vinhos da Christie’s, famosa casa de leilões. O jornalista inglês é também fundador de L’Academie du Vin, uma escola sobre vinho direcionada para ingleses e americanos que viviam em Paris, mas que ganhou fama e prestígio também entre os parisienses e acabou sendo adquirida pela família Baron de Rotschild em 1988. O britânico ganhou destaque no mundo do vinho ao promover a ‘Degustação de Paris em 1976’, comparando vinhos californianos e franceses em degustação às cegas, história que serviu de inspiração para o filme Bottleshock: a doença da garrafa lançado em 2008. Com exclusividade para a Bon Vivant, Steven lembrou um pouco da história da famosa degustação que mudou o mundo do vinho e falou também sobre o papel da crítica especializada e seu futuro no vinho.

Bon Vivant: Gostaria de começar a nossa entrevista falando sobre o Julgamento de Paris, tão importante para a mudança de paradigma que houve no mundo do vinho. Na sua opinião, qual é a próxima mudança de paradigma?
Steven Spurrier:
Você deve lembrar que em 1976 os vinhos franceses dominavam completamente o mundo, os vinhos do Novo Mundo simplesmente não tinham voz. Havia alguns vinhos interessantes na Califórnia, por isso eu quis confrontá-los com vinhos franceses. Nem se falava em Austrália, Chile ou na Argentina. Então, o resultado histórico de 1976 foi a primeira quebra da supremacia francesa no mundo do vinho. Eu não pensei em criticar os vinhos franceses quando organizei a degustação, o que eu queria era que os vinhos da Califórnia fossem reconhecidos. Eu era a última pessoa a esperar que os vinhos californianos ganhassem nos brancos e nos tintos, eu estaria muito feliz com o segundo e o quarto lugares. Mas se eles tivessem sido segundo e quarto ninguém falaria disso. Então, foi muito melhor que a degustação de Paris tenha se tornado um acontecimento histórico exatamente como foi. E isso foi ainda melhor para a França, pois eles se deram conta de que descansaram sobre os seus louros por tempo demais.
Então, o próximo confronto... Eu não sei. Acho que todos os vinhos podem ser comparados uns com os outros hoje em dia. Eu acho que a Argentina está elaborando vinhos maravilhosos, eu não vejo nenhum sentido em escolher um país como a França e um outro como a Argentina e dizer: “Certo, nossos Malbec são melhores que os seus!” Isso não tem mais nenhuma utilidade. Mas em uma degustação comparada ampla, os Malbec argentinos devem se sobressair, é nessa posição que eles devem estar. Então, acho que degustações às cegas ou comparações abertas entre vinhos de todo o mundo são importantes.



BV: Naquele momento, você tinha ideia da dimensão que o Julgamento de Paris poderia tomar como de fato aconteceu?
Steven:
De forma alguma. Quero dizer, eu tinha a minha loja de vinhos em Paris, eu tinha L’Academie du Vin e tudo o que eu queria ao convidar os nove melhores degustadores na França – pessoas que eu acreditava que eram os melhores e eles respeitavam o meu trabalho –, era o reconhecimento da qualidade dos vinhos elaborados na Califórnia. É uma região de produção histórica, eles elaboram vinhos lá desde 1850. Eu queria reconhecimento para aqueles vinhos e não simplesmente derrubar a França. Com o bicentenário, o 200o aniversário da independência dos EUA, eu não queria nada de negativo para a França. Por que eu deveria querer isso? Eu trabalhava na França naquele momento.


BV: Você acredita que desde então a imprensa e os críticos perceberam o poder que eles têm? Como você acha que isso se desenvolveu? Isso é bom ou ruim?
Steven:
Bem, eu acho que os críticos de vinhos têm um poder extraordinário e acho que eles não deveriam abusar desse poder. Há muitos blogs por aí, pessoas que não têm experiência em degustar vinhos que estão expondo a sua opinião nos seus blogs e alguém copia isso e publica nos seus blogs e assim por diante. Então, para ser um crítico de vinhos honesto, você tem que ter uma grande experiência naquilo sobre que você está falando, você tem de ser muito hábil em julgar os vinhos de forma independente e você tem de ser capaz de falar de maneira que informe o público e não simplesmente para inflar o seu ego. Há uma coisa acontecendo na crítica de vinhos: eles estão pensando que são importantes, nós não somos! Nós apenas informamos o público.


BV. Numa das mesas redondas nós vimos duas gerações no palco. Gary Vaynerchuk, especialmente, foi, ao menos, muito inovador e tem uma forma diferente de se comunicar. Você acredita que esse é o começo de uma nova escola na crítica de vinhos?
Steven:
Sim, acredito muito nisso. Eu quero dizer que Gary e eu somos de mundos diferentes. Ele é jovem o suficiente para ser meu filho; eu sou da mídia impressa, claro que estou na internet também, mas a abordagem dele é totalmente diferente da minha ou da Decanter e isso que a Decanter está fazendo um trabalho enorme na internet. Acho que a linha que ligou todas as apresentações daquela mesa redonda foi o fato de sermos todos pessoas apaixonadas pelo vinho e apaixonadas em informar o público sobre o vinho. E ele faz isso de um modo muito diferente daquele que a Decanter faz. Gary é a nova forma de comunicação. Essa é a forma da geração mais jovem, consumidores do futuro, buscar informações.


BV: Uma das principais questões que vimos no Wine Future Rioja 09 é o problema de atrair novos consumidores, especialmente os mais jovens. Aqui na Europa há o programa Vinho com Moderação. Você acha que esse tipo de programa pode contribuir com essa missão?
Steven:
Acho que nos EUA é muito diferente. A apresentação do Mel Dick mostrou que os millenial – pessoas com a idade entre 15 e 25 anos hoje – representam 70 milhões de pessoas hoje nos EUA. Essas pessoas serão os futuros consumidores de vinhos. Há algumas pessoas que seguirão Gary. Os EUA tiveram a Lei Seca, não funcionou e eles não querem mais isso, hoje se fala em liberdade. Isso são os EUA. Na Europa e principalmente na França se está indo por um discurso anti-álcool: que o vinho é ruim para você, etc. E há um movimento proibicionista muito forte crescente na Europa que está quase convencendo os jovens a não beber. Há também, como o Justin [Howard-Sneyd MW, comprador da Waitrose] falou, outras alternativas para o vinho: podem ser vinhos frisantes, saborizado, etc. Uma vez que os jovens forem atraídos por algo que é uma espécie de vinho, mas mais divertido, eles podem entrar no mundo do vinho inteiramente. Há de se ter um grande programa de educação para os jovens dizendo que o vinho é um produto natural, um produto agrícola, que é bom ou ao menos, que não é perigoso.

Na próxima edição, saiba o que Steven Spurrier e outros especialistas do Wine Future pensam sobre o vinho e mercado brasileiros.



Mudanças climáticas: responsabilidade e consequências



O planeta está passando por um processo de mudança climática que está afetando o cultivo de vinhas e, por consequência, a produção mundial de vinhos em todo o mundo, como se pôde concluir das apresentações feitas na mesa redonda sobre alterações climáticas no WineFuture Rioja’09. Na sua palestra, Miguel Torres, presidente da Bodegas Miguel Torres, afirmou que “não poderemos fazer vinhos com a mesma qualidade se as temperaturas continuarem subindo com o câmbio climático”. Segundo ele, este é um assunto de “grande importância”, já que para os vinhedos “apenas dois graus a mais implica em não se poder mais fazer vinhos” nas mesmas regiões de hoje.


Segundo o relatório do IPCC (relatório sobre novos cenários climáticos) de 2007, haverá uma redução no número de dias e noites frias e um aumento no número de dias e noites quentes durante o ano na maior parte do globo sendo provável que essa mudança seja antropogênica, ou seja, provocada com forte influência da atividade humana. Sabe-se claramente da importância que o número de dias e noites frias tem sobre qualidade dos vinhos, no que diz respeito à qualidade aromática, acidez e ciclo da vinha.


Torres explicou também que “são consumidos dois Kg de gás carbônico na fabricação de uma de uma garrafa de vinho”, por isso as novas alternativas de reciclagem são um importante desafio para as vinícolas. Este ponto de vista é compartilhado pela especialista em vinho e reciclagem Incola Jenkin: Ttemos que avançar na reciclagem das garrafas e na minimização de materiais para rotulagem, além de reduzir o uso de água”, destacou. De acordo com o relatório Stern, estudo sobre o impacto das mudanças climáticas na economia global, feito sob encomenda do governo britânico, 14% das emissões de gases responsáveis pela aceleração do efeito estufa tem origem no transporte de mercadorias. A redução do peso das garrafas de vinho impactaria diretamente nessas emissões. Quanto à preocupação sobre a resistência de garrafas mais leves, Incola afirma que o uso da tecnologia WRAP garante um menor número de pontos frágeis na garrafa em relação ao método tradicional.



O empresário Miguel Torres lembra ainda que ao contrário do que se pode pensar, o ciclo da videira não gera créditos de carbono, ou seja, as emissões são maiores do que o aprisionamento, principalmente quando as videiras arrancadas e ramos podados são queimados. Isso traz para o setor ua obrigação de pensar nas suas emissões e em alternativas para reduzi-las e reaproveitar energia. De acordo com o relatório Stern, com o investimento de 1% do PIB mundial, pode-se evitar alguns danos irreversíveis ao clima. Caso esse investimento não seja feito, em 50 anos os custos podem passar facilmente dos 10% do PIB mundial e, como já vimos mais acima, o setor vitivinícola sofrerá diretamente as consequências. As soluções apresentadas por Torres são aplicadas em algumas das vinícolas do seu grupo:
- Vinícolas subterrâneas: a cobertura verde ajuda a refletir os raios do sol;
- Utilização de placas fotovoltaicas: aproveitamento da energia solar;
- Utilização de água das chuvas e tratamento de efluentes;
- Reflorestamento;
- Adaptação dos vinhedos (densidade, altura de plantação, altitude, porta enxerto, cobertura vegetal para retenção de CO2);
- Viticultura orgânica: redução do uso de agroquímicos;
- Redução do peso das garrafas (de 450g para 350g em média);
- Busca de eficiência energética nas vinícolas: isolamento térmico;
Geradores de algas em placas: retenção de CO2;
- Geração de subprodutos: 50% de economia de energia em uma vinícola e o investimento amortizado em quatro ou cinco anos.
Torres informa, ainda, que as oportunidades de negócio e ameaças trazidas pelo o câmbio climático e meio ambiente estão entre os principais temas a serem tratados em cursos e mestrados sobre educação vinícola. Nesse sentido, Kevin Zraly, considerado um dos principais educadores sobre o vinho presentes e diretor técnico do Wines Future, explicou que “a educação é a única forma de avançar para que se tenha um setor consolidado”.






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