O senso comum
16/02/2018
clash

Clash

 

 

Alessandra Rech

 

 

‘Free: questão de bom senso’. Esse era o slogan de uma das marcas de cigarro mais conhecidas da minha geração, lançada em 1984. Os recentes episódios de censura no Brasil me trazem à memória a propaganda para ilustrar que nossa liberdade, no sistema em que estamos inseridos, só é legitimada enquanto consumidores. Cadê o bom senso?
Para o filósofo francês Michel Foucault, o poder penetrou no corpo e encontra-se exposto nele. Toda uma regulação social se dá sobre o corpo dos indivíduos. Quando ataques são perpetrados contra o corpo em estado de arte – por isso, político – é preciso questionar o que há por trás disso.

 

Duas recentes produções cinematográficas dão conta dessas tensões entre liberdade individual e poder. Cabe advertir que nenhuma delas é uma experiência leve. A palavra experiência, aliás, exprime bem a claustrofobia que podem provocar no espectador: ambas procuram mostrar de muito perto o resultado de forças opressoras, no corpo a corpo dos conflitos políticos e íntimos.

 

Clash, 2016, direção de Mohamed Diab, retrata um dia de protesto nas ruas do Cairo após a destituição do presidente eleito Mohamed Morsi. O recorte se dá dentro de um furgão da polícia. Enquanto a tensão explode lá fora, polaridades se evidenciam no espaço exíguo. Mesmo em restrição de liberdade, voltar para casa não é prioridade para todos. Presas de suas ideologias, representantes de diversos tipos sociais demonstram uma incomunicabilidade que mimetiza o cenário cotidiano das redes sociais.
Ainda para Foucault, “o grande fantasma é a ideia de um corpo social constituído pela universalidade das vontades quando não é o consenso que faz surgir o corpo social, mas a materialidade do poder se exercendo sobre o próprio corpo dos indivíduos.” Sem consenso nem bom senso está posto o ‘nonsense’ contemporâneo.
A outra produção, Clair Obscur, também de 2016, é turca, dirigida por Yesim Ustaoglu. Apresenta a vida de duas mulheres – uma delas acaba de cometer duplo assassinato; a outra, sua psiquiatra, envolve-se com o drama, que mimetiza a submissão às tradições familiares em seu país. O que acontece é um espelhamento que evidencia tanto a opressão da primeira, quanto a pseudoliberdade da segunda.
Em tempos obscuros, o cinema preocupado em denunciar é um resquício saudável da liberdade ameaçada que cabe, a cada um, defender.

 

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