Efeito do consumo dos derivados da uva na saúde das próximas gerações
16/02/2018

SUCO

Caroline Dani

 

Diversos estudos demonstraram que os derivados da uva apresentam benefícios à saúde humana, devido, principalmente, a sua composição fenólica, estando associado à neuroproteção e hepatoproteção em modelos animais. Embora diversos trabalhos demonstrem os efeitos benéficos do consumo de suco de uva, a ingesta deste alimento durante a gestação ainda é pouco estudado. Um estudo do nosso grupo, desenvolvido em 2015, demonstrou o efeito do uso durante a gestação e na pós-lactação sobre diferentes parâmetros, buscando se tornar referência ao consumo de suco durante a gestação e na infância. Dentre os resultados deste estudo demonstramos que o consumo de suco de uva na gestação gera um efeito ansiolítico, ou seja, reduz a ansiedade nos filhotes. Em relação ao comportamento alimentar dos filhotes, os provenientes de mães que consumiram suco durante a gestação e que suco no pós-lactação, e tiveram um peso corporal final inferior ao grupo que recebeu água.

 

Essa influência do consumo de suco de uva no peso corporal já foi apresentada por alguns estudos, onde o grupo tratado com suco de uva associado a uma dieta hiperlipídica, obteve ganhos inferiores de peso corporal quando comparados ao grupo controle com o mesmo tipo de dieta, salientando os benefícios do suco de uva sobre a redução do ganho de peso. Em nosso estudo, ainda, observamos que o suco de uva durante a gestação foi capaz de reduzir os níveis de colesterol, triglicerídeos, ureia e marcadores de danos hepáticos nos filhotes. Observamos também que o consumo de suco de uva pelos filhotes melhorou nos níveis de HDL.

 
Baseado neste primeiro estudo, outros estudos foram pensados pelo grupo, e em 2015 desenvolvemos um novo estudo envolvendo o consumo durante gestação e lactação de suco de uva associado à dieta rica em gordura ou não. Este estudo, já mencionei nesta coluna, fez parte do meu pós doutorado, no qual buscamos avaliar a proteção do consumo pela gestação contra alterações mamárias nos descentes do sexo feminino. Nossos resutlados preliminares mostram que o consumo de suco de uva pela mãe protege alterações que poderiam levar ao câncer de mama, protegendo o efeito deletério da dieta rica em gordura. Entre os marcadores que foram modulados na glândula mamária das filhas observamos que a ingesta do suco de uva pelas mães aumenta a expressão da proteína Sirtruina, a qual está relacionada com o aumento da longevidade, ou seja além de proteger de inúmeras doenças poderia estar relacionada ao aumento na expectativa de vida.

 
Ainda neste estudo, publicado no início deste mês, na Neuroscience Letters, avaliamos os descentes masculinos. Observamos neste estudo que o consumo materno de suco de uva tinto aumentou os níveis de acetilação da histona H4 nos ratos adolescentes. No grupo adulto jovem, a dieta hiperlipídica reduziu esse marcador. Conclui-se que as escolhas nutricionais maternas impactam o funcionamento do sistema nervoso da prole via modulação epigenética de forma idade-dependente; sugerindo o efeito positivo do suco de uva no aprimoramento das funções cognitivas na adolescência. Este marcador (acetilação), envolve uma nova ciência, a epigenética. A epigenética estuda de que forma os estímulos externos podem alterar o ‘comportamento’ de genes específicos sem modificar a sequência primária do DNA. Ou seja, é a interface entre o ambiente e o material genético, evidenciando que o estilo de vida é capaz de silenciar ou ativar genes associados com diferentes funções fisiológicas e/ou doenças, o que pode ter impacto transgeracional. Dentre os fatores ambientais, destaca-se a dieta, a qual modifica o fenótipo dos descendentes via modulação epigenética.

 

Estudos recentes observaram que a ingesta gestacional de uma dieta rica em gordura aumenta a predisposição a doenças na vida adulta de seus descendentes. Apesar do efeito neuroprotetor do suco de uva ser amplamente conhecido, pouco se sabe sobre seus efeitos na prole. Demonstramos pela primeira vez que seu consumo durante a gestação e lactação aumenta os níveis de acetilação da histona H4 no hipocampo da prole durante a adolescência, o que sugere o aprimoramento de funções cognitivas e memória. Este também é o primeiro estudo que considerou a idade da prole, evidenciando que o consumo de suco de uva durante a gestação pode ser benéfico para o aprimoramento cognitivo durante a adolescência, fase do desenvolvimento marcada pelo pico da neuroplasticidade. Em virtude da importância do tema, este trabalho foi selecionado como um dos três finalistas do Prêmio Saúde, da Revista Saúde, da Editora Abril. A premiação acontecerá no dia 28 de novembro, em São Paulo. Peço que torçam por nós.

 
Não somente os nossos estudos, mas outros já vêm reforçando o papel da ingesta materna dos derivados da uva e dos polifenóis no benefício à prole. Em um estudo desenvolvido por um grupo da UNIFESP, de São Paulo, que avaliou o consumo materno de resveratrol e o efeito em alterações na glândula mamária das filhas, conclui que o resveratrol protege contra alterações da glândula mamária induzidas por um agente dano pré-natal. Além disso, os resultados fornecidos são a primeira evidência de que o resveratrol ingerido pela mãe durante a gestação reduz a suscetibilidade ao desenvolvimento de tumores mamários em descendentes femininas, possivelmente por induzir um equilíbrio favorável da apoptose nos estágios iniciais do tumor.

 
Outro estudo com resveratrol, entretanto, ingerido durante o período de lactação pela mãe. Neste estudo os resultados indicaram que a ingestão materna de resveratrol durante a lactação atenuou o peso corporal e a triacilglicerol plasmática (níveis de triglicerideos) em descendentes masculinos adultos. Essas alterações atenuam a lipogênese hepática (produção de gordura no fígado) em descendentes de ratos machos adultos. Esses dados são explicados pelo grupo japonês da Hokkaido University ( Sapporo, Japão), por mecanismos da epigenética, e são extremamente importantes, visto que atualmente os altos índices de obesidade estão levando a inúmeras doenças, dentre elas a esteatose hepática. Essa condição pode levar a pessoa a uma cirrose, e perda expressiva da função hepática.

 
Bom, em resumo, já estou muito convencida que as escolhas maternas influenciarão na saúde dos seus descendentes. Estudos recentes ainda reforçam que a escolha de uma geração pode repercutir em até três gerações futuras.

 
Lendo todos estes trabalhos, como comentei acima, fiquei convencida da importância da minha alimentação para os meus filhos durante a gestação. Então, durante as minhas duas gestações cuidei da minha alimentação. Ingeri suco de uva e tive uma vida saudável, praticando exercícios até o final desta última gestação, leia-se até as 40 semanas. Estou em casa de licença maternidade, pois a Helena está com dois meses. Felizmente tive uma gestação saudável e ela nasceu com 3,645 quilos e 52 centímetros, algo que me orgulho muito. Agora é vê-los crescer e ver o quanto significativas serão as minhas escolhas na vida dos meus filhos. Segundo o Rafael, meu filho mais velho, que tem quatro anos, ele será paleontólogo e ‘cientistica’. Penso que os primeiros sinais desse consumo de suco de uva já estejam aparecendo, hehe. Abraço a todose viva as gerações futuras.

caroline@sucodeuvadobrasil.com.br

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