A magia do sobreiro e da cortiça
21/11/2017

abertura

Ao abrir uma garrafa de vinho, alguma vez já se perguntou qual é a origem da rolha que acaba de retirar dela? A Bon Vivant foi até Portugal conhecer o processo de produção das rolhas de cortiça, desde o montado até a indústria, e conta para você como funciona

Mirian Spuldaro* 

 

Conta a lenda que quem conhece um montado de sobro é enfeitiçado por ele e nunca mais se liberta de seus encantos. ‘Pronto’, como dizem os portugueses, fui mais uma vítima dessa magia. Em junho deste ano, tive a oportunidade de conhecer o setor da cortiça de Portugal. A convite da Associação Portuguesa da Cortiça (Apcor) testemunhei todo o processo de produção, desde o montado de sobreiros, até a fabricação das rolhas e demais produtos feitos a partir dessa matéria-prima. Uma experiência incrível que jamais será esquecida e que nesta edição partilharei com você, leitor da revista Bon Vivant.
Para entender de onde vem a rolha de cortiça que veda a maioria das garrafas de vinho que bebemos, fui conhecer o local onde tudo tem início: o montado de sobro, que recebeu esse nome, justamente, por não ser uma floresta selvagem, ou seja, é gerida pelo homem. A primeira parada dessa curiosa e misteriosa aventura foi na Vila de Coruche, no distrito de Santarém, na região do Alentejo, que concentra a maior parte dos montados portugueses (84%), seguida pelo Algarve, responsável por cerca de 5% da produção do país lusitano. Alguns montados podem, ainda, ser encontrados na zona de Tras os Montes ou no Douro Vinhateiro, por terem as mesmas características climáticas do Alentejo: calor, pouca umidade, solos arenosos e pobres em nutrientes. O sobreiro é uma árvore que se adapta muito bem com pouca água.
Em Coruche conheci a Herdade dos Fidalgos, uma das cerca de 400 propriedades que compõem a Associação dos Produtores Florestais do Coruche, entidade que representa os produtores privados. A Herdade dos Fidalgos é uma das maiores, com 2,8 mil hectares, sendo 1,5mil de sobreiros e de pinheiros. Os herdades, como se chamam essas propriedades por lá, não são exclusivamente áreas de sobreiros, pois reúnem também outros tipos de culturas, como pinheiros, eucaliptos, alguns, inclusive, mantém produção de videiras, plantações de verduras e criação de gado a fim de garantir a subsistência das famílias durante o período entre colheita dos sobreiros.
Cheguei em pleno período de extração da cortiça, que só é feita no verão europeu, especificamente nos meses de junho, julho e agosto, pois é o período em que a árvore está em atividade, isto é, a produzir mais cortiça, criando, assim, uma zona de fragilidade que permite a retirada de sua casca. A beleza dos sobreiros chama a atenção logo na chegada ao vilarejo. Milhares de árvores, de diferentes tamanhos, arrebatam a paisagem.
O número oito (de 2008) visto em diversos troncos ao redor, indica que cheguei ao ponto de parada. Ao desembarcar do carro avisto os ‘lenhadores’, ou melhor, os descortiçadores, denominação dada à profissão em Portugal, com seus pequenos e afiados machadinhos em mãos, fazendo o descortiçamento. Se fechar meus olhos, ainda consigo ouvir o som do machado cravando naquela casca porosa e o ranger da lâmina em contato com a cortiça ainda bruta. Por legislação, em Portugal os sobreiros podem ser descortiçados, ou seja, ter suas cascas retiradas, somente a cada nove anos. Por isso, cada árvore é marcada com um número que indica o ano do último descortiçamento.

 

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O número sete, de 2017, que foi pintado no tronco das árvores daquela parcela, indica que o próximo descortiçamento só poderá ser feito em 2026

 

O Código Internacional das Práticas Rolheiras

O primeiro descortiçamento é feito quando a árvore tem, em média, 25 anos de idade ou 70 centímetros de diâmetro e um metro e meio de altura. Os materiais extraídos do primeiro (cortiça virgem) e do segundo (cortiça secundeira) descortiçamentos não podem ser aproveitados para a elaboração de rolhas naturais, por serem muito irregulares e duros. A matéria prima somente atinge a qualidade necessária para tal fim quando o sobreiro tem 43 anos, no terceiro descortiçamento. Antes disso, a cortiça é utilizada para a confecção de outros produtos, como bolsas, calçados e para revestimentos utilizados na construção civil. Um sobreiro vive entre 200 e 250 anos.
Já na indústria, em cumprimento ao Código Internacional das Práticas Rolheiras, as pranchas de cortiça são empilhadas e ficam expostas ao sol e à chuva de seis meses a um ano para que se estabilizem. Após este período, a cortiça é colocada numa câmara de água fervente para limpá-la e amaciá-la, processo denominado cozimento. Em seguida, as placas são selecionadas (em qualidade e espessura) e cortadas em tiras de largura conforme o tamanho da rolha que se quer obter. Depois de perfuradas, as rolhas são lavadas, branqueadas e esterilizadas com peróxido de hidrogênio. Por último, é feita a gravação a laser ou com jato de tinta da marca da empresa compradora.

 

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Você Sabia? O descortiçamento do sobreiro é um processo ancestral que só pode (e deve) ser feito por especialistas: os descortiçadores. “Este é um trabalho muito duro, mas essa é uma profissão que ultrapassa gerações. Não à toa essa é a prática agrícola mais bem paga no mundo”, destaca a engenheira florestal da Associação dos Produtores Florestais do Coruche, Carlota Alves Barata.

 

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Você Sabia? Eleito símbolo nacional, o sobreiro (Quercus Súber), foi elevado ao nível da bandeira e do hino português. É preservado por lei e só pode ser cortado, mediante autorização do Ministério do Meio Ambiente, caso esteja morto ou tenha alguma doença que possa se propagar às demais árvores.

 

 

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Você Sabia? O mais antigo e mais produtivo sobreiro existente no mundo é o Assobiador, em Águas de Moura, no Alentejo. Plantado em 1783, este sobreiro tem mais de 14 metros de altura e 4,15 metros de perímetro do tronco. O seu nome se deve ao som originado pelas imensa quantidade de aves que abriga. Desde 1820, já foi descortiçado mais de vinte vezes. Em 1991, o seu descortiçamento resultou em 1,2 mil quilos de cortiça, mais do que a produção registada pela maioria dos sobreiros em toda a sua vida. Só esta extração deu origem a mais de cem mil rolhas. foto/sucocorkugs.com/divulgação

 

 

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Você sabia? Mais de 80% dos montados portugueses são espontâneos, os sobreiros nascem naturalmente. Grandes empresas, como a Corticeira Amorim, já estão investindo, por meio de produtores florestais parceiros, na criação de novos montados irrigados e certificados, visando a manutenção futura de sua produção de rolhas…

 

 

Montado (1)

… O Montado é considerado uma das 35 zonas de biodiversidade, um habitat que hospeda uma rica diversidade de plantas e animais, muitos dos quais estão em vias de extinção.

 

A indústria corticeira

 

O montado de sobro assume uma importância crucial para a economia e a ecologia de vários países do mediterrâneo, ocupando uma área mundial de 2,1 milhão de hectares. Portugal, que possui a maior extensão de sobreiros do mundo, concentra 34% deste total, o que corresponde a 736 mil hectares. Na sequência, aparece Espanha, com 574 mil hectares; Marrocos (383 mil ha); Argélia (230 mil ha); Tunísia (85.7 mil ha); França (65.2 mil ha) e Itália (64.8 mil ha).
Em termos de produção, segundo a última informação divulgada pela Associação Interprofissional da Fileira da Cortiça (Filcork), em 2015 foram produzidas cerca de 201 mil toneladas de cortiça no mundo, sendo Portugal responsável por 49,6% desse total, com uma produção média de 100 mil toneladas. De acordo com o Gabinete de Estratégia e Planejamento (GEP) – Ministério do Trabalho, Solidariedade, e Segurança Social, atualmente o setor corticeiro português conta com 670 empresas, que produzem juntas cerca de 40 milhões de rolhas por dia, e empregam cerca de nove mil trabalhadores.
Além de ser o maior produtor de cortiça do mundo, Portugal também é líder no que se refere às exportações. Em 2015, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o país exportou 177,4 mil toneladas de cortiça, o que em cifras representa 899,3 milhões de euros, cerca de 62% do total mundial exportado. A Espanha ficou na segunda posição com 16% do total de exportações.
O principal setor de destino da cortiça portuguesa é a indústria vinícola, que absorve 72% de tudo o que é produzido, seguido da construção civil, com 28%. Em relação ao destino das exportações, os cinco países que mais importam o material de Portugal são a Maldávia, com 74%, seguido do Chile, com 23%, da Argentina, com 20%, Rússia, com 19%, e Armênia, com 18%. Portugal é, ainda, o quarto maior importador mundial de cortiça, a qual é utilizada para transformação e posterior exportação sob a forma de produtos de consumo final, com uma cota de 9,5% e 142,6 milhões de euros.
Neste segmento, a Corticeira Amorim, de Portugal, lidera com folga. Com quase 150 anos de história, está presente em mais de 100 países e é responsável pela fabricação de um terço de todas as rolhas produzidas no mundo. Em 2016, foram produzidas 4.4 bilhões de rolhas pela empresa, sendo um bilhão de cortiça natural. No total, o grupo mantém 30 unidades industriais espalhadas pelo mundo. Inaugurada em 2001, a unidade de Coruche, a qual visitei, compra a cortiça dos montados e fabrica pranchas para granulado de rolhas, para rolha natural e para revestimento e isolamento, além de fabricar discos para rolhas de espumante e de champagne. Operando 24 horas por dia, a unidade produz cerca de oito milhões de discos diariamente.

 

A rolha de cortiça natural

 

O monge beneditino francês Dom Pierre Pérignon leva o crédito pelo uso da cortiça como vedante para vinho efervescente. Reza a lenda que em 1630 ele teria utilizado pela primeira vez uma rolha de cortiça no gargalo de uma garrafa do seu famoso champagne Dom Pérignon em substituição às de madeira utilizadas até então. Até 1830, tinham a forma do cone. Somente a partir daí foram criadas máquinas capazes de introduzir rolhas cilíndricas (como as de hoje) nos gargalos das garrafas.
A cortiça é um material que, como diz o ditado, ‘agrada gregos e troianos’. Três mil anos a.C. já era utilizada pelos povos antigos para a confecção de diversos materiais, como aparelhos destinados à pesca, calçados, boias, como isolante térmico e em diversas outras aplicações ao longo da história. Sua relação com o vinho também é intrínseca. Na antiguidade era utilizada para vedar ânforas de vinho.
Cerca de 65% do faturamento do setor corticeiro português é representado pela rolha de cortiça natural. Contudo, de toda a cortiça que é extraída, apenas 30% é considerada apta para a confecção de rolhas naturais. “Produzimos diversos materiais, mas o coração dessa indústria e o que faz todo resto funcionar é a rolha de cortiça natural. Se está no chão, no sapato ou no isolamento é porque não tinha qualidade para se transformar em rolha natural. Essa é a lógica. Inclusive, hoje 62% da energia da Amorim provém da queima de pó de cortiça”, salienta Joana Mesquita, relações públicas e responsável pela comunicação do Grupo Amorim & Irmãos S.A.

 

 

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Preparação da prancha de cortiça para a elaboração de rolhas naturais, na Corticeira Amorim, em Coruche

Joana destaca que, atualmente, a indústria da cortiça tem uma solução para todos os vinhos disponíveis no mercado, com produtos adaptados, em termos de preço e de performance, a cada uma das gamas de vinhos existentes. Por conta disso, existem rolhas que custam entre € 0,02 (R$0,74) até € 2 (R$ 7,41), utilizadas em grandes vinhos de guarda, os quais custam mais de cem euros a garrafa. “Hoje, os principais concorrentes da rolha de cortiça são as rolhas sintéticas, de plástico, que a cada dia perdem mais espaço, por não apresentarem nenhuma vantagem em relação à cortiça; além da vedação de rosca (scraw cap), que tem espaço no mercado, mas que não serve toda a gama de vinhos existentes”, destaca a profissional. “A cortiça é o único produto vedante existente que possui o que nós chamamos de resiliência, ou seja, capacidade de recuperar a sua forma inicial depois de inserida em uma garrafa. Além de ser o melhor vedante que existe”, completa ela.
Outra empresa que visitei em Portugal, a Lafitte Cork, é de origem francesa. A primeira unidade de fabricação de rolhas de cortiça da marca foi criada em 1918, no sudoeste de França. A unidade portuguesa foi implantada no ano de 1956, em Paços de Brandão, com o objetivo de melhor controlar a matéria-prima. A empresa conta, ainda, com mais três filiais, a Lafitte Cork and Capsules, na Califónia-Napa; a Lafitte Chile; e a Metalico Chile, ambas no Chile. O Brasil é atendido por meio da unidade chilena.

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Produção quase artesanal de rolhas de cortiça natural, na Lafitte Cork

Conforme o diretor geral da Lafitte Cork Portugal, José Pinto, hoje o grupo produz cerca de 300 milhões de rolhas para vinho, sendo cerca de 70% de rolhas de cortiça natural e o restante de rolhas técnicas, com discos naturais nas extremidades.
Fundada em 1926, a Relvas Portugal, especializada na fabricação de rolhas para champagnes e espumantes, também está entre as maiores empresas do setor em Portugal. Atualmente, que conta com duas unidades fabris, uma no Vale do Cerejo, em Cortiçadas de Lavre, e a outra em Mozelos, conta com uma produção anual de cerca de 130 milhões de rolhas. Entre os principais mercados de distribuição de produtos da empresa estão a França, Itália, Estados Unidos e Brasil.

 

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Processo de classificação das rolhas de Champagne, na Relvas Portugal

 

Investimentos para vencer o TCA

Departamento de Investigação e Desenvolvimento da Corticeira Amorim, em Santarém

Departamento de Investigação e Desenvolvimento da Corticeira Amorim, em Coruche

O TCA Tricloroanisol é o fungo responsável pelo odor desagradável que às vezes está presente no vinho. Estatísticas afirmam que o bouchonée (termo francês para vinho com gosto de rolha) causado pelo TCA ocorre em cerca de 1% a 2% das rolhas. Perante a crescente concorrência, nos anos 2000 a indústria corticeira precisou investir em tecnologia e muita pesquisa para vencer esse fantasma. Com isso, centenas de milhões de euros têm sido investidos por inúmeras empresas.
Os resultados têm sido positivos. Atualmente, já é possível identificar e descartar essas rolhas para que não cheguem ao mercado. “Com muito investimento em tecnologia, conseguimos reduzir a praticamente zero o nível de TCA das rolhas que produzimos. Todavia, ainda não existe uma tecnologia capaz de erradicar o TCA. Pela nossa experiência, acreditamos que hoje menos de 1% das rolhas produzidas tenham TCA. A nossa estratégia é a prevenção em todos os processos de tratamento da cortiça. Procuramos evitar o problema e quando identificado, é tratado. O que não é possível tratar, é descartado”, explica Joana Mesquita, da Corticeira Amorim.

 

Na última década, a empresa investiu mais de 10 milhões de euros na criação do Departamento de Investigação e Desenvolvimento, específico para a detecção do TCA na matéria-prima e nas rolhas. A Amorim é a primeira empresa do mundo que possui uma tecnologia de análise individualizada de controle de qualidade para rolhas naturais, a NDtech, que oferece garantia de TCA não detectável.

 

Além da rolha

revestimento Amorim – Wicandres

O prestígio da rolha de cortiça como vedante para garrafas de vinhos permanece há séculos e por ser um material 100% natural, reciclável e reutilizável, suas propriedades (flexibilidade, resiliência, isolante térmico e acústico) são exploradas na decoração, na arquitetura e design, na construção civil, na indústria automobilística, aeroespacial, por grandes marcas esportivas e da moda. Enfim, o potencial de excelência da cortiça vai muito além da rolha.
O grupo português Amorim, além de ser o maior produtor mundial de rolhas, também domina o segmento de revestimentos feitos à base de cortiça. A Unidade de Negócios (UN) Revestimentos é líder mundial na produção e distribuição de revestimentos com cortiça. A Amorim Revestimentos (http://www.amorim.com/unidades-de-negocio/revestimentos) está presente em mais de 50 países e conta com um variado portfólio com soluções de alta tecnologia em revestimentos e isolamentos.

 

* A jornalista viajou a convite da Associação Portuguesa da Cortiça (Apcor).

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