Degustação – Moscato
17/11/2017

 

a glass of sparking wine
Pra início de conversa é bom ressaltarmos que a variedade não almeja ser a matéria-prima de grandes e encorpados vinhos. Ela proporciona uma bebida leve, fresca e descomplicada. Sempre com aroma floral, talvez lembrando rosas e ‘gostinho de uva’. Seu cultivo resulta em acidez e açúcares equilibrados, além de cachos e bagas de tamanho médio, cascas espessas e polpa suculenta e carnuda. Apesar de ser branca, algumas variações se apresentam em tons rosados, o que diferem no momento da produção dos vinhos, que podem ser secos, doces e espumantes.
Diante delas, é difícil ficar indiferente. “Os espumantes e os vinhos aromáticos vêm bem ao gosto dos consumidores brasileiros. Certamente esse estilo de vinho é porta de entrada para que o consumidor conheça outros vinhos”, diz o enólogo e presidente da Associação Farroupilhense de Produtores de Vinhos, Espumantes, Sucos e Derivados (Afavin), João Carlos Taffarel.

Origem

A Moscato é, supostamente, originária da Grécia e se expandiu pelo mediterrâneo, encontrando condições propícias para se desenvolver. Antigamente era conhecida por ‘Apianae’, que significa a ‘preferida pelas abelhas’. Isso devido a sua doçura. Ainda por volta de 1360 já era conhecida a prática de adicionar, durante a fermentação alcoólica, uma quantidade de flores de sabugueiro secas à sombra para aumentar o aroma de Moscato do vinho.
A cepa se adaptou a muitos terroirs de todo o mundo. Os diferentes tipos – estima-se que sejam em torno de 200 – têm tradição em países vinícolas como França, Espanha, Portugal, Grécia, Alemanha, Áustria, África do Sul, Austrália e muitos outros, nos quais é chamada de muitos nomes, como Moscato de Otonnel, Moscato de Alexandria, Muscat Blanc, Petits Grains, Muscat de Frontignan, Moscatel de Setúbal e assim por diante. Em suas diversas versões, geram vinhos doces (o maior grupo), brancos secos de mesa e de outros grupos. Na Itália, entre muitos outros, a Moscato d’Asti é base de um dos espumantes mais populares do mundo, o Moscato d’Asti.
No Brasil, apesar de ser também conhecida como ‘Moscato Italiano’, a ‘Moscato Branco’, cultivar referência da Indicação de Procedência Farroupilha para vinhos finos moscatéis (leia mais na página 10), não apresenta identidade com nenhuma das centenas de cultivares de uvas aromáticas Moscato descritas na viticultura italiana.
Segundo a pesquisadora e coordenadora do Programa de Melhoramento Genético da Uva da Embrapa Uva e Vinho, Patrícia Ritschel, a Moscato Branco já estava presente na Serra Gaúcha em 1932, quando foi introduzida na coleção da antiga Estação Enológica para multiplicação e distribuição para os viticultores. Diversos estudos, inclusive com a participação de pesquisadores estrangeiros, auxiliaram na caracterização molecular por meio de testes de DNA, que confirmam que ela tem identidade comprovada e não é uma mistura de materiais.
Também, por meio da ampelografia (análise morfológica das diversas partes da videira, como os brotos, as folhas, os cachos e as bagas), chegou-se à conclusão de que são fortes os indícios de que a Moscato Branco só é cultivada comercialmente no Brasil. A próxima etapa é compará-la a cultivares do tipo moscato mantidas em coleções de outros países, como Portugal, o que deverá resultar na prova definitiva do seu cultivo exclusivo em solo brasileiro. Por aqui, a Moscato faz muito sucesso na elaboração dos espumantes moscatéis. É também a Vitis vinifera branca mais plantada. São mais de 1,2 mil hectares, somando-se oito diferentes cepas da mesma família. Da Moscato Branco são 540 hectares. Logo depois vem a Moscato Embrapa, uma cultivar oriunda do cruzamento das uvas Couderc 13 e July Nuscat feito pela Embrapa Uva e Vinho, com 470 hectares, e, em seguida, a Moscato Giallo, com 146 hectares.
Tanto os vinhos tranquilos quanto os moscateis possuem aromas que vão se modificando, naturalmente, com o tempo. “A evolução desses produtos depende muito das suas características físicoquímicas, cuja mudança do estilo de aromas se confunde com o envelhecimento e nem sempre podemos dizer que os produtos ficam oxidados, mas, sim, evoluídos”, explica João CarlosTaffarel. Ele ainda complementa: “existem ótimos produtos moscatéis que possuem mais de cinco anos por exemplo. Normalmente, em torno de três anos, é um tempo razoável para o consumo”.

 

 

Um terroir especial

Há um território na Serra Gaúcha com uma vocação especial para o cultivo das variedades de Moscato devido ao clima e ao solo. É Farroupilha, localizada a 25 quilômetros de Bento Gonçalves e 111 de Porto Alegre. O cultivo de uvas moscatéis no município representa quase 38% da produção brasileira. São 7.836.87 toneladas (296 hectares), de acordo com dados de 2015. As principais variedades cultivadas são a Moscato Branco, Moscato Giallo e Moscato clone R2.
O terroir é tão propício que as vinícolas que integram a Associação Farroupilhense de Produtores de Vinhos, Espumantes, Sucos e Derivados (Afavin) já comercializam, desde 2015, seus vinhos com o selo de Indicação de Procedência. Podem utilizar a expressão “Indicação de Procedência – Farroupilha” as vinícolas associadas à Afavin. São elas: Adega Chesini, Basso Vinhos e Espumantes, Cooperativa Vinícola São João, Vinhos Don Giusepp, Cave Antiga Vitivinícola, Vinícola Cappelletti, Vinícola Colombo, Vinícola Perini e Vinícola Tonini.
A IP Farroupilha possui uma área geográfica de 379 quilômetros quadrados, contemplando todo o município de Farroupilha, que representa 99% desta área delimitada, e incluindo também pequenas áreas contíguas ao município de Farroupilha, em Caxias do Sul, Pinto Bandeira e Bento Gonçalves. A IP Farroupilha possui a particularidade de ter, no interior da área geográfica delimitada, uma Região Delimitada de Produção de Uvas Moscatéis (RDPM), centrada na região tradicional produtora das uvas Moscato. A RDPM possui 129 quilômetros quadrados e dela deverão ter origem pelo menos 85% das uvas para os vinhos da IP Farroupilha.
A principal variedade é a tradicional Moscato Branco, historicamente cultivada no município. As outras variedades autorizadas são todas moscatéis, incluindo: Moscato Bianco, Malvasia de Cândia (aromática), Moscato Giallo, Moscatel de Alexandria, Malvasia Bianca, Moscato Rosado e Moscato de Hamburgo. Poderão ser elaborados os seguintes vinhos finos: Moscatel Espumante, Vinho Fino Branco Moscatel, Vinho Frisante Moscatel, Vinho Licoroso Moscatel, Mistela Simples Moscatel e Brandy de vinho moscatel.
As atividades em busca da IP começaram em 2005, com a criação da Afavin. Na sequência, diversas ações foram desenvolvidas, mas a iniciativa ganhou força no ano de 2009 com a aprovação do projeto de Desenvolvimento e Estruturação da Indicação Geográfica, sob a liderança da Embrapa Uva e Vinho, na figura do coordenador-geral do projeto de desenvolvimento de Indicações Geográficas de vinhos finos e espumantes da Serra Gaúcha, pesquisador Jorge Tonietto.
A obtenção da IP é uma grande conquista, conforme aponta o presidente da Afavin, João Carlos Taffarel. “O reconhecimento da IP Farroupilha coroa um trabalho de longo prazo que temos desenvolvido pelo fortalecimento da cadeia vitivinícola local. A obtenção representa a passagem para um novo patamar de trabalho e de promoção dos vinhos e espumantes farroupilhenses. Enfatizar as bebidas moscatéis é uma estratégia assertiva, que valoriza e aproveita a vocação local e tem um grande apelo no mercado, sendo esses produtos versáteis, leves e aromáticos, com aceitação no mercado nacional e potencial para exportação”, salienta.
A certificação da Afavin é uma das seis Indicações Geográficas destinadas aos vinhos brasileiros pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Também tem IP: Altos Montes (Flores da Cunha), Vale dos Vinhedos, Pinto Bandeira, Monte Belo do Sul, Vales da Uva Goethe (Santa Catarina).

 

Faça a sua escolha entre os tranquilos e frisantes

O notável aroma encontrado nas uvas Moscato e sua ampla versatilidade a tornam uma excelente opção para os consumidores, especialmente aqueles que desejam entrar no mundo do vinho. Isso porque a bebida é fácil e leve. Os vinhos elaborados a partir dessa variedade de uva podem ser desenvolvidos no estilo seco, espumante, doce ou, ainda, como vinhos de sobremesa.
A Bon Vivant convidou vinícolas brasileiras a enviarem vinhos da variedade Moscato. Recebemos 30 amostras de vinhos tranquilos e levemente frisantes (na página 16 leia mais sobre o moscatel espumante). Dessas, apenas três não obtiveram 85 pontos, pontuação mínima que o vinho deve receber para ser publicado. Os preços informados são os praticados no varejo das vinícolas. Os produtos podem ser adquiridos nos sites das vinícolas.

 

 

A degustação, às cegas, aconteceu no restaurante Di Paolo, em Caxias do Sul, e reuniu enólogos e sommeliers. Foram degustadores: Arlindo Menoncin, sommelier e enólogo – Gran Vin Loja de Vinhos; Edegar Scortegagna, enólogo e presidente da Associação Brasileira de Enologia; Luciano Vian, enólogo; Samuel Servi, enólogo; Fernanda Bebber, enóloga – Laboratório Lavin; Vinícius De Miranda Santiago, sommelier; e Fábio Scotti, consumidor e sommelier. Na foto ao lado também estão os degustadores dos vinhos Tannat (leia mais na página 27): Alejandro Cardoso, enólogo; André Gasperin, enólogo; André Peres Jr., enólogo; Janaína Massarotto, enóloga; João Carlos Taffarel, enólogo; Luciano da Rosa, sommelier; e Sandra Valduga Dutra, enóloga.

 

 

degustadores

* Entenda os pontos: 95 a 100 (fabuloso) 90 a 94 (excelente); 87 a 89 (muito bom); 85 a 86 (bom)

 

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Versão com borbulhas

O moscatel espumante atrai ao mundo do vinho novos consumidores. Isso é fato. E no Brasil a qualidade do moscatel é indiscutível. A cada ano as vinícolas ampliam investimentos e tornam os produtos cada vez mais aceitos entre os apreciadores da bebida. Cuidados especiais, como não tornar o produto doce em demasia, estão sendo tomados pelos enólogos. E isso está tornando o moscatel verde-amarelo refrescante!
O espumante moscatel vem ganhando espaço no mercado nacional. Segundo dados da União Brasileira da Vitivinicultura (Uvibra), a comercialização no mercado interno e externo no período de janeiro a dezembro de 2011 foi de 2.987.684 litros enquanto que em 2016 foi de 4.474.588, representando um aumento de 49,8%. O favorecimento do clima para a produção e o consumo da bebida e o gosto do brasileiro pela bebida são os responsáveis por esse aumento.
“Segundo a legislação brasileira, o vinho moscato espumante ou moscatel espumante é o vinho cujo anidrido carbônico provém de uma única fermentação em recipiente fechado, de mosto ou de mosto conservado de uva moscatel, com uma pressão mínima de quatro atmosferas (atm) a 20ºC e com um teor alcoólico de 7 a 10% v/v e no mínimo 20 gramas de açúcar remanescente. Esta vinificação tem por objetivo conservar as características aromáticas tão singulares das variedades moscatéis, bem como parte do açúcar natural da uva. Essas práticas conferem à bebida leveza e jovialidade, tornando-a distintamente frutada e adocicada”, explica a enóloga e professora de enologia da Unipampa Dom Pedrito, Ângela Rossi Marcon.
O espumante moscatel tem sua origem na Itália, na província de Asti, no Piemonte, com o nome de espumante Asti. No Brasil, a elaboração de espumante moscatel iniciou na Serra Gaúcha em 1978, pela empresa Martini e Rossi que possuía sede na Itália e se motivou com o conhecimento e apoio técnico de profissionais da cidade natal.

 

Um guia para escolher seu moscatel preferido

 

A Bon Vivant reuniu sua equipe de jornalistas e sommeliers para degustar, às cegas, 47 amostras de moscatel enviadas pelas vinícolas brasileiras a convite da revista Bon Vivant. Comprovando a qualidade e o frescor já conhecido desse estilo de vinho, todas as amostras obtiveram 85 pontos ou mais. Abaixo estão sugestões de moscatel elaborado com a uva Moscato Branco e também nas versões rosé dessa variedade. Os preços informados são os praticados no varejo das vinícolas. Os produtos podem ser adquiridos nos sites das vinícolas.

 

 

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