Identidades em jogo
19/09/2017
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O cartunista Laerte no documentário ‘Laerte-se’

O poeta português Mário de Sá-Carneiro registrou nos seguintes versos dimensões da subjetividade: “eu não sou eu, nem sou o outro. Sou qualquer coisa de intermédio”.

Alessandra Rech

Musicada por Adriana Calcanhotto, tomou forma de canto essa questão que para muitos pode parecer resolvida desde os primeiros documentos, mas para tantos outros é um enigma. O trecho salta à memória diante de duas produções recentes e, no mínimo, impactantes.

A jornalista gaúcha Eliane Brum, reconhecida por exercer uma comunicação reflexiva e atenta às causas de seu tempo, e Lygia Barbosa da Silva dirigem ‘Laerte-se’. O longa (primeiro documentário nacional produzido pela Netflix) é um convite à libertar-se de preconceitos, ou conceitos estreitos, como é o que se percebe ao acompanhar a biografia de um artista em plena transformação. As questões de gênero e sexualidade são infinitamente mais amplas do que se supõe.

O cartunista Laerte revelou-se mulher quase aos 60 anos. A partir de um início relutante no documentário, os depoimentos do artista desvelam-se em ritmo cada vez mais intenso, tornando-se uma metáfora do próprio processo de aceitação de transformação. Pai de três filhos, casado algumas vezes, Laerte compõe sua identidade feminina reflexivamente. Suas dúvidas, sutilezas e encantos na descoberta de outra forma de se vestir e dialogar com a imagem tornam o documentário especialmente relevante para pensar sobre a legitimidade de um desejo que está além do corpo, mas não pode prescindir dele. Ao mesmo tempo em que Laerte acolhe sua identidade de mulher, há uma transformação significativa nos temas de seu trabalho. É a verdade do artista, valiosamente exposta na edição. O processo libertador não é nada simples. E não por acaso, a intolerância está frequentemente andando ao lado do simplismo. Violência que desvia os sujeitos de suas próprias contradições.

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Alex Monner, protagonista de ‘A próxima pele’

Outra questão de identidade é proposta pelo filme catalão ‘A próxima pele’. Roteiro, fotografia e atuação competentes envolvem o espectador no drama de Gabriel, interpretado pelo jovem Alex Monner. Depois de oito anos perdido da família, o garoto retorna a um lar cercado pela dúvida. Diante do primeiro estranhamento da mãe com a figura daquele que já não se parece com a sua criança, o espectador é convidado a refletir sobre um dado corriqueiro, e ainda assim desconcertante: o momento em que um filho entra na adolescência se assemelha, muitas vezes, a essa sensação de se estar diante de um estranho, dadas as transformações velozes que conferem aspectos inusitados à personalidade.

O filme, com uma bela fotografia da paisagem dos Pirineus, vai além, envolvendo o espectador no mistério daquele reencontro marcado por tantas lacunas de memória. Seria mesmo Gabriel o jovem que retorna? A busca pelos episódios passados o leva a dolorosas descobertas e a profundos questionamentos sobre si mesmo. De alguma forma o tempo também nos rouba quem fomos. “A sala do castelo é espelhada. Tenho medo de mim. Quem sou?”, concluiria Mário de Sá-Carneiro.

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