Eu sou o outro
09/01/2017

 

 

alessandra2i

Alessandra Rech

 

Aquilo que chamamos de paz é um dispositivo frequentemente utilizado para esconder o exercício sistemático da violência – aquela que não produz impacto na sensibilidade das sociedades modernas. A provocação é do filósofo esloveno Slavoj Zizek. A violência não problematizada está aí como efeito do capitalismo e suas ideologias mais sutis, nem por isso menos violentas, disseminadas, por exemplo, pelo cinemão hollywoodiano. Tais ideias, reunidas em ‘Violência’ (editora Bointempo, São Paulo, 2014) podem ser metaforicamente aplicadas a produções clássicas, como ‘Tubarão’ (EUA, 1975, dirigido por Steven Spielberg), ou mais recentes, como Guerra Mundial Z (EUA, 2013, Marc Foster). Na primeira, Zizek identifica a propaganda ideológica que conhecemos como Guerra Fria, o combate ao comunismo – quando as produções de terror passam a trabalhar a ideia de ‘um inimigo em comum’ a combater.

O segundo filme, aparentemente uma aventura tensa acerca de zumbis, dá um show de violência simbólica. Ameaças possivelmente vindas do Oriente, seja da África, de Israel ou da Coreia (socialista) do Norte apontam para um imaginário que legitima os muros no contraponto entre família e mundo, a qualquer preço. O inimigo já não é um animal mutante, ou um E.T,; pode ser um igual, só que voraz (faminto? sem teto?) – e precisa ser combatido nesse apocalipse que tão bem simula a economia do capital, uma guerra em que vencem os mais aptos. Destituir o outro de alma é um jeito fácil de justificar sua destruição em massa (isso vale para os zumbis, como já valeu em tantos outros genocídios, incluindo o que costumamos eufemizar definindo apenas como a prática social do escravismo). Até a indústria farmacêutica leva ‘merchand’ em Guerra Mundial Z: vacinas com poder supostamente milagroso roubam a cena em defesa dessa frágil humanidade.
Esses dois filmes, citados apenas para pensar na força da ideologia onde ela melhor se esconde, ajudam a situar a importância de ‘Paulina’ (Argentina, 2015, dirigido por Santiago Mitre).

Na trama, Paulina (Dolores Fonzi) larga uma promissora carreira na advocacia para ser professora em uma região pobre. A escolha convicta da personagem se revela desde o início do filme, quando ela enfrenta a resistência do pai, um poderoso juiz (Oscar Martinez). O que o espectador não espera é a dimensão da consciência social de Paulina. A realidade romântica de ensinar e estimular nos jovens da periferia a consciência política esbarra, logo, em questões culturais arraigadas que fazem de Paulina uma vítima, com consequências para a sua vida e a dos que a cercam.
A partir daí, cada diálogo, cada decisão, cada movimento suscita profundas discussões sobre direitos humanos entre os personagens e, naturalmente, o público, que sai do cinema confrontando os próprios limites éticos.

‘Paulina’ não é um filme de entretenimento. É uma experiência, pela qual não se pode passar indiferente. À medida que seus dilemas se aprofundam, Paulina se distancia da imagem idealizada do pai de modo tão radical como se criasse um par por oposição. Por esse quadro edipiano, seria possível amparar na psicanálise explicações para seus atos mais desprendidos. Talvez fosse até conveniente desviar o foco, mas é no âmbito social que o filme tem sua maior grandeza. Sintetiza, com uma linguagem simples, planos fechados e atores competentes, o quase gasto e tão pouco vivido conceito de alteridade – uma profunda noção do outro que as ideologias, tradicionalmente, mascaram.

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