Os vinhos e a brisa do Lago de Garda
19/07/2016
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Vinhos Lugana, Chiaretto e Bardolino: os vinhos do Lago (Foto/Andréia Debon)

 

É verão na Itália. Época de curtir o calorzinho e a temperatura amena. De agora até o final de setembro, uma das maravilhas do país é passear pelas lindas vilas medievais que beiram o Lago de Garda, situado entre as regiões do Vêneto, Lombardia e Trentino Alto Adige. A beleza do maior lago vem de suas águas cristalinas que descem dos alpes nevados.

Os atrativos em torno do Lago de Garda são diversos e emocionam não só pela riqueza histórica, mas também por tamanha beleza. Assistir ao pôr do sol, por exemplo, se torna um programa para perder o fôlego. Na pequena Lasize, por exemplo, os barcos dos pescadores e um prédio construído no ano de 1300, localizado na praça do centro histórico da cidade, emolduram ainda mais a paisagem. A Dogana Veneta, um prédio milenar, construído em estilo veneziano, era utilizado para o transporte de mercadorias entre a Lombardia e a República de Veneza. O elegante complexo foi reestruturado em 2003 e hoje acolhe eventos culturais e sociais.

Com mais de dois mil anos de história, a região mantém resquícios da Idade Média que podem ser revividos em visitas a característicos castelos, como o Scaligero, em Sirmione, no

Vêneto, e pequenas igrejas medievais. Atração também são as casas e seus diversos estilos arquitetônicos caracterizados pelas paredes pintadas em diferentes tons e já envelhecidas pelo tempo.

Ainda há um atrativo muito especial: os vinhos. Especialmente na região Sudeste, na parte vêneta do Lago, que compreende Bardolino, Lasize, Peschiera del Garda, entre outras pequenas vilas, a bebida é o fascínio dos apreciadores. Os tintos são leves e aromáticos; os rosés clarinhos e delicados; e os brancos cheios de personalidade. Em ordem: Bardolino, Chiaretto e Lugana. Diferente de outros italianos, os vinhos não são muito conhecidos no Brasil, e tão pouco exportados.

Foi com o objetivo de conhecer esses três estilos de vinhos que a reportagem da Bon Vivant participou, no início do mês de março, a convite do Consorzio Tutela Vino Bardolino e do Consorzio Tutela Lugana, de um evento chamado ‘Anteprima Chiaretto, Lugana e Bardolino’. Durante uma semana, circulamos por vinícolas, participou de degustações e teve a oportunidade de conhecer o território. Das degustações organizadas, participaram 90 produtores, com cerca de 300 vinhos, grande parte da safra 2015. As vindimas de 2014 e alguns vinhos mais antigos também puderam ser apreciados e avaliados. Para os vinhos Bardolino e Chiaretto, o evento acontece há oito anos. Já para o branco, Lugana, 2016 foi o primeiro ano em que os vinhos estiveram à prova de jornalistas, sommeliers e profissionais do setor. Em um dos dias as atividades também foram abertas ao público consumidor.

A denominação de origem dos vinhos Lugana e Bardolino (este último também tem a versão rosé, o Chiaretto) foram as primeiras a serem instituídas na Itália. O Lugana, elaborado em cinco cidades entre as regiões da Lombardia e do Vêneto, foi reconhecido como DOC em 1967. Já a DOC Bardolino, cujas uvas devem ser cultivadas somente nas cidades em torno de Bardolino e arredores, próximas ao Lago de Garda, foi criada em 1968. As duas DOC somam juntas 4,5 mil hectares. São três mil para o Bardolino/Chiaretto e 1,5 mil para o Lugana. Atualmente, entre as DOC de vinho tinto, o Bardolino é o sexto colocado quando se fala em números de produção. O Lugana é o sétimo entre os brancos italianos e o Chiaretto é líder absoluto.

 

Bardolino, o embaixador do Lago

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Dogana Veneta, prédio centenário localizado em Lazise. (Foto/Paola Giagulli)

 

O vinho Bardolino é o que mais representa a região do Lago de Garda. É obtido das uvas Corvina Veronese (80%) e Rondinella. Em alguns casos também é utilizada a Mollinara e Corvinone. As uvas são autóctones da região. Mais ao norte de Verona, essas mesmas uvas dão origem a um dos tintos mais importantes da Itália, o Amarone. A diferença maior é que o amarone é feito com uvas que passaram por um processo de pacificação. O Bardolino é bebido jovem e não passa por barricas, em sua maior parte.

É delicadamente aromatizado, com notas de cerejas, morango e outras frutas vermelhas. É um vinho ligeiro e de fácil harmonização, com destaque para as carnes mais leves, os peixes e as verduras. Na culinária local também vai muito bem com a tradicional sopa de legumes, com receitas à base de funghi e com um prato bem típico por lá: a polenta com bacalhau.

O vinho é elaborado em praticamente toda a parte Vêneta do lago. A área compreende as cidades de Garda, Bardolino, Affi, Cavaion Veronese, Pastrengo, Lazise, Castelnuovo del Garda, Peschiera del Garda, Sommacampagna, Valeggio sul Mincio, entre outras pequeninas localidades.

 

Chiaretto, uma revolução rosé

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Vinho Chiaretto: moda entre os turistas, principalmente europeus (Foto/Andréia Debon)

Vinho obtido em terras veroneses, o Chiaretto é elaborado com as mesmas uvas de seu irmão, o Bardolino. São utilizadas a Corvina, Rondinella, Mollinara e, em alguns casos, Negrara. O Chiaretto, na verdade, é a versão rosé do Bardolino. As vendas desse estilo de vinho têm crescido nos últimos dois anos. Mas, o sucesso não veio por acaso. É fruto de iniciativa e trabalho organizado dos produtores. A reviravolta aconteceu em 2014.

Segundo o presidente do Consorzio Bardolino, Franco Cristoforetti, a vindima estava por chegar, e não seria nada fácil trabalhar com aquelas uvas na elaboração de Bardolinos de excelência. Foi então que os produtores tomaram uma decisão: a safra complicada para os tintos daria espaço para os rosados com tons tênues, aromas primários e leve graduação alcóolica. “Elaborar vinhos rosés com um estilo mais provençal já vinha sendo feito por algumas vinícolas e, diante de uma safra difícil como se estava desenhando a de 2014, decidimos parar de reclamar do tempo, que fazia chuva, que fazia frio, e nos reunimos em torno de uma mesa para discutir quais seria as medidas que tomaríamos e entendemos que a mudança deveria ser no estilo de elaboração do vinho. E já tínhamos a informação de que os consumidores não estavam mais querendo um tinto ligeiro, mas, sim, um vinho que fosse fresco e leve”, conta Cristoforetti. Nascia ali o projeto Rosé Revolution: mudar o estilo e ampliar as vendas para outros mercados, além da Itália e Alemanha. A partir de então as vendas só aumentaram. Saíram das 4,5 milhões de garrafas comercializadas para 10 milhões de garrafas, um fenômeno. “Os novos mercados não têm os preconceitos que o mercado para o qual trabalhamos hoje tem. Por isso, queremos abrir novos horizontes. O Brasil, apesar de ser um país distante da Itália, tem potencial porque tem um clima perfeito para consumir o Chiaretto”, destaca o presidente do Consorzio Tutela Vino Bardolino.

O Chiaretto é um vinho perfeito como aperitivo e para refeições leves. Divulgar o rosé como uma opção na hora de harmonizar um prato também faz parte do projeto Rosé Revolution, do Consorzio Bardolino. Em andamento está o Pizza&Chiaretto, Abbinamento Perfetto (Pizza&Chiaretto, uma harmonização perfeita). A ideia é que o vinho seja divulgado e servido nas principais pizzarias de toda a Itália.

 

Lugana, frescor floreal e aromas amendoado

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Vinho Lugana em várias versões (Foto/Divulgação)

Apreciado principalmente por alemães, visto que é desse país que chega boa parte dos turistas que visitam o Lago de Garda, o vinho Lugana é case de sucesso entre os brancos italianos. Para se ter uma ideia, há dez anos eram 500 o total de hectares plantados e cinco milhões de garrafas. Hoje, são 1500 hectares e 15 milhões de garrafas por ano. Além disso, os produtores estão conseguindo fazer com que o vinho seja valorizado em termos de preço. O Lugana é um branco elaborado com a uva Turbiana (Trebbiano). Até 2011, a variedade era chamada de Trebbiano di Lugana, devido as suas características diferenciadas. Mudou para Turbiana em 2011. “O crescimento nas vendas e a valorização do Lugana é a prova de que este território apresenta características únicas. Temos um vinho moderno, com a cara deste território”, diz Luca Formetini, presidente do Consorzio Lugana.

O vinho Lugana pode ser varietal ou, segundo prevê a disciplinar da denominação, utilizando-se 10% de outra variedade branca que seja cultivada na região. Atualmente, a maioria dos produtores prefere elaborar um vinho 100% Turbiana. É um vinho amarelo, com tons esverdeados ou mais dourados, dependendo do tempo de maturação. É dividido em três estilos: Lugana, Lugana Riserva e Lugana Superiore. O primeiro é um vinho mais jovem e fresco. O Superiore deve ter pelo menos 12 meses de envelhecimento. Já o Riserva deve envelhecer no mínimo 24 meses, sendo seis deles na garrafa. Há, ainda, o Lugana Vendemmia Tardiva, estilo passito; e o Lugana Spumante.

Os vinhedos são cultivados tanto na parte lombarda do Lago (Desenzano, Sirmione, Pozzolengo), quanto na vêneta (Peschiera del Garda). O território do vinho Lugana se caracteriza por ser argiloso e calcário, rico em sais minerais. Essas características fazem com que se obtenha um vinho com características organolépticas as quais destacam-se os aromas amendoados, além de vinhos estruturados. O clima é influenciado pela brisa que vem do Lago de Garda, com diferenças térmicas entre o dia e a noite. O terroir ideal para o cultivo da uva Turbiana (Trebbiano). Menos produtiva que as uvas cultivadas em outros terrenos italianos, a Turbiana possui cachos médios, compactos e polpa suculenta.

Por: Andréia Debon

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