Onde a arte e a fé se encontram
09/11/2012

 

 

Unir num mesmo espaço a sagacidade da fé e obras de arte não é uma tarefa fácil. Mas, há sete décadas, a Igreja São Pelegrino, em Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, vem juntando esses dois elementos. O templo católico é ponto turístico da cidade e atrai anualmente milhares de fiéis de todos os lugares do Brasil com o intuito de orar e apreciar as obras-primas que adornam suas paredes. “A igreja é motivo de orgulho para a comunidade. Há um interesse muito profundo e significativo em ver as inúmeras obras de arte, que extasiam os visitantes”, diz o pároco Mário Pedrotti, que comanda a paróquia desde 1985.

 

Esse monumento de arte e fé começou a ser arquitetado em 1891, quando se ergueu um capitel em homenagem a São Pelegrino, mais tarde substituído por uma pequena igreja. No ano de 1942, é criada a paróquia de São José de São Pelegrino por dom José Baréa. Dois anos depois é lançada a pedra fundamental da nova igreja, projetada pelo arquiteto Vitorino Zani, e concluída em 1953. Na ocasião, a igreja foi dedicada a São Pelegrino e São José. A denominação foi alterada em 1983, quando foi reconsagrada como Igreja São Pelegrino à Nossa Senhora da Pietà, em honra a uma réplica da Pietà de Michelangelo, doada pelo Papa Paulo VI, em 1975, por ocasião das comemorações do centenário da imigração italiana.

 

Atributos especiais
A igreja de São Pelegrino ganhou fama em virtude de uma série de murais e obras de arte. As mais importantes são as pinturas do artista Aldo Locatelli. “O contexto de Locatelli na São Pelegrino é muito importante. Numa carta ao padre Giordani ele diz: ‘obra mais importante e grandiosa que essa só a da Capela Sistina’, ao finalizar as pinturas do teto. Ele é um pouco vaidoso, mas o trabalho é impressionante e o futuro vai mostrar a grandiosidade da sua obra”, aponta o professor Luiz Ernesto Brambatti, autor da obra Locatelli no Brasil.

 

Em 1950, com as obras quase prontas, era preciso decorar a igreja. O padre Giordani, primeiro pároco do templo, ficou sabendo de um pintor italiano que dois anos antes tinha ornamentado o teto da catedral de Pelotas. Padre Giordani foi conhecer os afrescos de Aldo Locatelli e voltou impressionado. “Ele convidou o pintor lombardo para decorar a Igreja de São Pelegrino. Queria um projeto mais moderno e uma pintura diferenciada, e Locatelli iniciou os trabalhos dos murais”, lembra Brambatti.

 

Inicialmente, Locatelli pintou a Santa Ceia, de 90 metros de área e ladeada pelas imagens da aparição do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alecoque, à esquerda, e a Nossa Senhora de Caravaggio à camponesa Joaneta,  à direita. O trabalho foi executado em apenas 11 dias no ano de 1951. Em seguida, Locatelli pintou o teto com adornos da criação do Cosmo e da Mulher, da expulsão de Adão e Eva do Paraíso e do Juízo Final. Pintou ainda o hino Dies Irae, obra única pintada em arte religiosa de forma completa.

 

A Via Sacra
Entretanto, a obra referencial de Locatelli na Igreja São Pelegrino é a Via-Sacra. Residindo em Porto Alegre, o pintor optou por fazer os quadros em óleo sobre tela em seu ateliê. Trabalhou neles durante dois anos e foi com eles que fez sua única exposição como artista – antes de os quadros serem expostos na igreja. Conforme Brambatti, para compor as 14 estações da Via-Sacra, o pintor se baseou no livro A Paixão de Jesus Cristo segundo o cirurgião, do médico francês Pierre Barbet. “Neste livro estão 40 anos de estudo sobre a crucificação do ponto de vista médico. Barbet mostra o sofrimento de Jesus enquanto homem e o que teria ocorrido com seu corpo durante o seu suplício. Locatelli decide romper com essa tradição eclesial de Jesus Cristo”, aponta o professor.  

 

É por isso que a Via-Sacra da São Pelegrino não segue os moldes clássicos das estações. O pintor decidiu não reproduzir sequências, mas criar formas próprias, incorporando elementos do cotidiano, numa linguagem expressionista. “Utiliza elementos modernos vinculados à imagem. Em determinado quadro, Jesus não aparece e nem a cruz. Em outros ele adiciona elementos que não estariam no original da Via-Sacra como um sapato, uma lata de café, uma vassoura. São elementos que ele joga com figuras pós-modernas dentro de uma realidade clássica cristã. É a sua grande genialidade: misturar cubismo, mesclado com expressionismo e classicismo”, explica Luiz Ernesto Brambatti.

 

 

Em nenhum dos quadros da Via-Sacra Locatelli colocou as auréolas ao redor da cabeça de Cristo. Pela leitura, o artista queria apresentar Jesus como um homem. “A representação de Locatelli traduz um drama profundamente humano, imortalizado como foi o de Jesus e como queria que fosse, através das cores mágicas de seus pincéis”, afirma o professor.

 

As portas de bronze são outro destaque da igreja. Criadas por Augusto Murer, escultor de Belluno, ilustram cenas da imigração. Sua concepção iniciou em 1969 e demorou 14 anos para ficar pronta. As portas foram inauguradas em outubro de 1983. Da Itália, elas vieram sob forma de moldes de gesso, sendo que a fundição foi realizada em Caxias, pela Siderúrgica Tomé. O peso total das portas é de cerca de sete toneladas e sua movimentação é feita por meio de motores elétricos. O representante do Papa, dom Carlo Furno, realizou a consagração.

 

Foto reprodução

 

Nas portas, detalhes especiais. A porta do amor, à esquerda, exalta a vida. Um casal com crianças domina o conjunto. Na parte superior, a representação do Anjo Gabriel. A porta central, chamada da Paz, é composta por 16 cenas. Destacam-se aspectos da travessia do mar e da ocupação do solo. É recordado o trabalho de operários, artesãos e agricultores. Os cestos cheios evocam a generosidade da terra, e as pombas representam a paz. Outras imagens representadas são as da vindima, da fraternidade e da maternidade. A porta da justiça, à direita, apresenta dois grupos de imagens: ao alto, o mapa das 17 léguas que constituíram o território da colônia Caxias. O segundo grupo é a partilha, que simboliza a fartura, o fruto e o trabalho.

 

Quem foi Aldo Locatelli
O pintor italiano Aldo Locatelli nasceu em 18 de agosto, na região de Lombardia, no norte da Itália. Apesar da família humilde, conseguiu estudar arte na Accademia Carrara, em Bergamo. Em 1948, é convidado a cruzar o Atlântico e pintar a Catedral São Francisco de Paula, em Pelotas. No Brasil, vive uma nova fase e cria sua maior obra-prima na recém-inaugurada Igreja de São Pelegrino. Na catedral pinta a Via-Sacra, o Juízo Final e a reprodução em imagens do hino fúnebre Dies Irae (Dia da Ira). Realiza trabalhos ainda em Porto Alegre, Santa Maria, Novo Hamburgo, Itajaí e São Paulo. Vítima de câncer, faleceu em 3 de setembro de 1962, aos 47 anos. “O Brasil tem dois grandes muralistas: Locatelli e Cândido Portinari. Pena que ele não teve tempo, pois quando começou a pintar em São Paulo veio a adoecer. Com certeza se tivesse continuado ganharia a expressão nacional de Portinari”, acredita o professor Ernesto Brambatti.

 

 

A igreja localiza-se na Avenida Itália, esquina com a Avenida Rio Branco, no bairro São Pelegrino, em Caxias do Sul. O espaço está aberto a visitação das 8h às 18h. As missas ocorrem de segunda a sexta-feira, às 17h e às 18h30min. Nas quintas-feiras, às 16h; sábados às 17; e nos domingos às 8h, 10h, 17h e 19h45min.

Fontes: Wikipédia, livros Portas de Bronze – Fé, Arte e História, de Alvino Melquides Brugalli, e Locatelli no Brasil, de Luiz Ernesto Brambatti.

Por Danúbia Otobelli

 

Arte e religiosidade

Caxias do Sul e região orgulham-se de sua indústria, de seu comércio, de seu empreendedorismo, mas também podem se orgulhar de sua cultura, da produção de ideias, obras de arte, crenças, costumes e atitudes. Nessa perspectiva, a Igreja de São Pelegrino, além de templo com finalidade religiosa, é um local de turismo devido ao conjunto de obras de arte que lá estão reunidas. Pintura, escultura e arquitetura, mais a liturgia, a música, a oratória, com a presença de pessoas recolhidas espiritualmente, formam uma síntese artística que reproduz a tradição das grandes catedrais do passado. Representa, igualmente, os fortes vínculos de união entre fé e cultura, e essa união fundada na necessidade de o homem dar significado à própria existência humana.

 

As obras de Aldo Locatelli da Igreja de São Pelegrino, em especial, alguns murais e a Via-Sacra, as portas de Augusto Murer e a réplica da famosa Pietà de Miguelangelo são únicas e irrepetíveis. Quem quiser apreciá-las deve ir à Igreja de São Pelegrino. Muitos vão aos museus de São Paulo, Nova Iorque e da Europa, enfim, para ver obras de arte, mas não podem ignorar que, aqui, embora numa escala quantitativa menor, também encontram modelos artísticos de qualidade e representativos da tradição ocidental. Mesmo que a Pietà seja uma cópia de obra original, e uma das poucas cópias existentes no mundo, quem for vê-la pode, através de sua percepção estética e religiosa, ter acesso ao que de mais alto grau artístico se produziu na história.

 

A arte dirige-se, ao mesmo tempo, à sensibilidade e à inteligibilidade. Ela atinge o homem todo, sua emoção e sua razão. Nesse aspecto, a linguagem artística distingue-se, por exemplo, da linguagem teórica. Arte é para ser sentida e pensada. E ela é, primordialmente, vista, tocada, ouvida, enfim, compreendida de modo afetivo. Por isso, quem entra na Igreja de São Pelegrino é imediatamente convocado a olhar, a perceber cores, linhas, contornos, composições marcadas por equilíbrio, proporções estéticas, imagens que funcionam como metáforas bíblicas e até, no caso específico, lições teológicas.

 

Mas não basta ter olhos para enxergar. É possível, com estudo e uma observação orientada, formar a percepção estética que permite notar os detalhes de estilo de cada obra. Todavia, no caso de uma igreja, além da percepção estética, é necessário educar a percepção religiosa, pois, as obras de arte lá existentes não se esgotam na dimensão artística; ao contrário, a arte põe-se a favor da mensagem cristã.

 

A linguagem litúrgica e religiosa é irmã da linguagem poética e artística. Isso explica por que na história sempre houve uma ligação entre arte e religião. A linguagem litúrgica e a doutrina religiosa fazem uso constante da poesia para se comunicar. Por isso, a beleza da expressão é adequada para meditar, refletir e pensar a transcendência, a verdade da fé. Isso é tão profundo que mesmo as pessoas sem religião ou fé religiosa, desde que tenham o mínimo de dimensão espiritual da vida, encontram na arte sacra conforto e sentido. Assim, é possível concluir essas observações dizendo que a Igreja de São Pelegrino pertence naturalmente aos seus fiéis, mas, igualmente, a todas as pessoas de boa vontade, e aos que lá vão ver e escutar o sentido das manifestações artísticas. No mínimo, para apreciar a arte, é preciso ter fé na vida.

 
Por Jayme Paviani

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One Comment

  1. laura disse:

    oi eu tenho 9 anos eu gosto muinto das pinturas de Aldo Locatele beiijoooooooooooos
    se estiverem vovos tau tau bay bay

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